20 de novembro de 2021 Miguel Silva

Este artigo é um uma homenagem ao Kichute, modelo de tênis que fez história nas décadas de 1970 e 1980 e marcou uma geração. O tênis foi lançado em 15 de junho de 1970, aproveitando o advento da Copa do Mundo do México, na qual o Brasil se sagrou tricampeão mundial de futebol. Baita pé quente o Kichute.

O Kichute era um misto de tênis básico e chuteira, e foi largamente produzido no Brasil pela Alpargatas. Com o slogan Kichute, Calce Esta Força teve seu ápice entre os anos de 1978 e 1985, quando suas vendas ultrapassaram 9 milhões de pares anuais.

Feito de lona e solado com cravos de borracha, todo em preto, virou mania entre os meninos, pois era usado tanto para ir à escola quanto para a prática do futebol, ainda mais depois da conquista do Brasil da Copa do Mundo de 1970. Devido ao seu longo cadarço, era comum entrelaçá-lo na canela antes de amarrá-lo, ou mesmo dar voltas nele próprio, passando pelo solado.

O Kichute (1970) fazia parte da linha de tênis da Alpargatas e os seus primos mais próximos e que o precederam foram os tênis Conga (1959) e Bamba (1961). Estes três modelos da Alpargatas são, verdadeiramente, os três primeiros modelos de tênis produzidos no Brasil em escala industrial. O Conga tinha linhas mais femininas, enquanto o Bamba tinha linhas mais masculinas e esportivas.

Do Que Era Feito o Kichute? Quais os materiais que compunham o seu cabedal e solado?

Para matar a curiosidade de quem sempre se perguntou do que mesmo era feito o Kichute, este texto é imperdível.

A Criação desta Arte é o André Santos, amigo e parceiro deste projeto.

1- Cabedal de Lona (Canvas): a Lona é um tecido resistente e áspero feito de algodão, cânhamo, linho, ou fio similar, usado para fazer itens como calçados, roupas, acessórios, velas e tendas e como superfície para pintura a óleo.

 Curiosidade Extra? a Lona para calçados vulcanizados, normalmente, é 100% algodão, porque se for feito de fio sintético (e.g. Poliéster, Poliamida) pode encolher durante o processo de Vulcanização. Entretanto, as Lonas de Algodão para os calçados vulcanizados podem conter fios sintéticos na sua composição, mas sempre de Poliéster (PES), nunca de Poliamida (PA), pois pode afetar as propriedades de colagem, e ninguém que seu tênis descolado, certo?

Mas o que a França, o dialeto Árabe a Cannabis e o Canvas tem a Ver com o Kichute?

Ocorre que a palavra Lona provém do nome da cidade francesa de Olonne, situada na Vendeia, Vale do Loire, onde o tecido era produzido largamente. Lona, em inglês, é Canvas, termo que deriva da palavra árabe para “Cannabis” – o cânhamo era utilizado popularmente para produzir lona.

2- Espelho da Gáspea de Laminado de PVC: PVC é a abreviação de Cloreto de Polivinil (Polyvinyl Chloride); um material termoplástico sintético produzido por polimerização de cloreto de vinila. As propriedades dependem do plastificante adicionado (ftalato), que podem torna-lo mais maleável ou mais rígido. As formas flexíveis são usadas em mangueiras, isolamento, sapatos, roupas, etc.

Devido ao seu baixo custo, tende a ser usado em calçados de menor preço, que é o caso do Kichute. O uso de PVC foi sistematicamente reduzido em calçados esportivos nas últimas décadas em todo o mundo, em particular, devido ao uso de ftalato em suas composições.

 3- Ilhoses Metálicos: os ilhoses para calçados são fabricados, na sua grande maioria, em Metal, sendo Latão e Ferro as principais ligas utilizadas. O latão é mais resistente à corrosão do que o ferro. Você se lembra que antigamente os ilhoses dos tênis enferrujavam com mais facilidade? Eram feitos de ferro por ser um material mais barato. Além disto, o tratamento e o acabamento das peças faz toda a diferença quanto a proteção da oxidação, e para evitar que as peças percam o seu acabamento, brilho, cores, etc.

 4- Atacador / Cadarço de Poliéster: a variedade de materiais utilizados nos atacadores é bem ampla. Em geral, para calçados esportivos, que é o caso do Kichute, é utilizado o Poliéster. Mas usa-se também o Algodão, e outras fibras naturais e sintéticas.

5- Lingueta: a Lingueta do Kichute não era forrada e nem mesmo estofada. Era bem básica, sem acabamentos nas bordas, e tinha mais a função técnica de proteger os pés do atrito dos atacadores, do que de destaque no visual. Ou seja, tudo feito para manter o custo e o preço final o mais baixo o possível.

6- Debrum Simples: há diversos tipos de processos de acabamentos de bordas, e dependerá do propósito do calçado, da função da peça, etc. para que seja escolhido o melhor acabamento possível. Alguns dos acabamentos de bordas mais utilizados são: Borda Afio, Borda Virada Simples, Borda Luva ou Luvada, Borda Debruada, Debrum Francês, Debrum Inglês, e Borda com Vivo ou Vivada.

8- Palmilha Interna: embora eu não tenha certeza, eu acredito que a Palmilha Interna do Kichute era de EVA em Chapa e/ou Espuma PU Tradicional. O objetivo desta peça neste modelo de caçado era bem objetiva: oferecer conforto ao usuário.

Como a Construção Vulcanizada, em geral, é muito simples e se não usa uma palmilha de montagem e/ou uma entressola capaz de absorver o impacto causado aos pés no momento da caminhada e da corrida, a Palmilha Interna tem esta função atribuída a si.

Nota histórica: um dos atributos, recursos ou característica que faltavam ao Kichute era, justamente, o Conforto. Esta foi uma das razões de sua queda nas vendas, em especial, com a chegada de modelos de tênis que ofereciam maior conforto aos pés. Modelos tais como o  adidas Marathon, Le Coq Sportif,  M2000, Reebok, e New Balance.

A Chegada dos modelos mais elaborados fez com que a percepção dos consumidores mudasse a tal ponto que as escolas começaram a proibir o uso do Kichute por duas reações: diziam que machucava o pé das crianças, e porque riscavam os pisos das salas de aulas e quadras esportivas. O mercado já era VUCA (Volatile, Uncertain, Complex, Ambiguous) naqueles tempos.

A Criação desta Arte é o André Santos, amigo e parceiro deste projeto.

9- Unissola de Borracha: basicamente, o solado era um bloco que borracha vulcanizada com os seguintes aspectos que podemos destacar:

Borracha Vulcanizada. O processo, embora tecnicamente “Simples” requer muito conhecimento técnico e químico para que tenhamos o Solado de Borracha devidamente aderido ao Cabedal. A Construção Vulcanizada à primeira vista parece muito simples de ser produzida, mas não é mesmo.

 10- Travas ou Garras: são saliências na sola de um sapato ou em um acessório externo a um sapato, que fornecem tração adicional em uma superfície macia ou escorregadia. Eles podem ser cônicos ou em forma de lâmina e feitos de Plástico (geralmente, TPU), Borracha ou Metal. O tipo usado depende do ambiente de jogo, seja grama, gelo, grama artificial ou outros motivos.

Curiosidade: como o Kichute era um misto de Tênis Casual com Chuteira, por muito tempo ele fez parte da lista do uniforme escolar, e junto com o Bamba e o Conga, sem dúvidas, fez parte do dia a dia da maioria dos leitores com mais de 40 anos.

Poderíamos dizer que o Kichute foi primeiro Sapa-Tênis-Chuteira de nossa história. Eu ainda lembro do cheirinho de novo do Kichute que ganhávamos no início do ano escolar (tinha que durar o ano todo).

Além da prática esportiva o Kichute era perfeito para subir em árvores. Ele era muito flexível copiando as superfícies das árvores, e os detalhes laterais auxiliavam na aderência e no tracionamento para andar sobre os galhos das árvores. Um grande atributo para aquela época já que as crianças estavam autorizadas a subir em árvores, pois isto era coisa de criança.

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